Conferência proferida por Mia Couto no Fronteiras do Pensamento 2012.
sábado, 14 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Biografia retirada do site oficial do escritor
Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu em 5 de Julho de 1955 na cidade da Beira em Moçambique. É filho de uma família de emigrantes portugueses. O pai, Fernando Couto, natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dois livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique. Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques para estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) - de 1976 a 1976; da revista semanal Tempo - de 1979 a 1981 e do jornal Notícias - de 1981 a 1985. Em 1985 abandonou a carreira jornalística.
Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, sendo atualmente professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades desta universidade. Como biólogo tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. - Avaliações de Impacto Ambiental. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca.
Mia Couto é um "escritor da terra", escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos - o mundo vivo das histórias. Mia Couto é um excelente contador de histórias. É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras, como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa.
Atualmente é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países. Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e cinema. Tem recebido vários prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária.
É comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra, em 2007 o prêmio União Latina de Literaturas Românicas e em 2013 ganhou o Prêmio Camões, principal prêmio para autores em língua portuguesa.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Entrevista para o site do jornal O Globo
Antes de sua participação na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Mia Couto foi entrevistado por sete escritores lusófonos (o angolano Pepetela, os portugueses Inês Pedrosa e Gonçalo M. Tavares, e os brasileiros Andrea del Fuego, Tatiana Salem Levy, Alberto Mussa e Marcelo Moutinho) para o site do jornal O Globo:
PEPETELA: Como te nasce uma estória? De uma ideia genérica inicial, de um plano previamente elaborado, de uma frase que meio inconsciente escreves e depois se vai desdobrando? Ou de outra forma qualquer?
A história nasce de outras histórias. De pessoas que se revelam, de encontros fragmentados. Mas não sou capaz de construir um plano. Nenhum dos meus livros teve essa arquitetura antecipada. Deixo-me apaixonar pelos personagens, a ponto que eles se tornem uma presença obsessiva dentro de mim. Durmo com eles, acordo com eles, vou para o serviço com eles. E por razão dessa paixão eles me autorizam a que me aproxime, espreite as suas vidas e escute os seus segredos. São esses personagens que me vão relatando a história. A minha função, durante um tempo, é manter essa relação apaixonada até que surja de dentro de mim um outro eu que faz a poda daquela árvore caoticamente ramificada. Esse é um segundo momento, mais oficial, mais de disciplina. É aqui que o escritor se converte num reescritor.
MARCELO MOUTINHO: Seus textos são marcados pela recriação de palavras, por neologismos e inovações sintáticas, recursos próprios da fala. Qual a importância da oralidade para a sua literatura?
Do ponto de vista literário, eu venho da poesia, venho dessa oralidade que toda a poesia pode conter. Do ponto de vista da minha história, eu nasci e vivo numa sociedade em que a oralidade é absolutamente dominante. Quando um certo livro me apaixona, a leitura se atrapalha e eu acabo escutando vozes. E sou de tal modo inundado que tenho que pousar o livro. Como se o verbo “ler” não desse conta dessa descoberta, feita página à página. A minha aposta é dar corpo à palavra, deixar que a página se abra às vozes e às falas da oralidade. E isso acaba contaminando a própria escrita, que se torna mais plástica e que aceita recriar uma fronteira nova com o universo da oralidade. Já disse antes: sou um poeta que escreve histórias.
ALBERTO MUSSA: Considerando a importância fundamental da mitologia e das tradições orais dos povos africanos, como é seu processo de apropriação desses legados na literatura? Qual é a relação que você estabelece com os mitos dos povos de Moçambique?
Interessam-me os medos e inseguranças que levaram a que se construíssem lendas e mitos. Interessa-me a sua lógica de construção enquanto narrativas e interessa-me a beleza que muitas vezes eles transportam. Não sei se os povos africanos têm mais tradições orais e mais mitos do que os povos de outros continentes. Creio que não. Existe, noutras culturas, um modo envergonhado de conviver com esse patrimônio. Mas esse acervo de histórias está presente. Apenas foi formatado para se apresentar nos lugares próprios e com as indumentárias adequadas: revela-se na criação artística, no mundo de fantasia do cinema, nos sonhos que são relatados em murmúrio.
INÊS PEDROSA: Existe, na tua opinião, uma “literatura de expressão portuguesa”? Em caso afirmativo, quais seriam as suas características distintivas?
Não creio. Existem várias. Tantas quantos os autores que as fazem. Existe uma literatura de expressão inglesa? A resposta será a mesma. O que que creio que se pode dizer é que os escritores de língua portuguesa partilham de uma condição histórica que teve séculos de encontros e desencontros. E também que o seu idioma tem uma história partilhada que faz com que tenham uma lógica e uma dinâmica que lhe são próprias. O fato de ter havido o Brasil e ter havido os países africanos introduziu um dinamismo particular à língua portuguesa que nada tem a ver com alguma caraterística de essência. O Brasil e os países africanos imprimiram as suas marcas de cultura sobre a língua e isso provocou que o nosso idioma comum tenha uma plasticidade própria.
ANDREA DEL FUEGO: No que a formação em biologia influencia em sua literatura? E seu olhar poético migra para outras áreas em que atua, como na biologia?
No meu caso, não sei que fronteira há entre a escrita e a biologia. O que me fascina na biologia é que ela relata a mais bela de todas as epopeias: a história da Vida, é o modo como ela sugere que não somos exatamente quem pensamos ser. Somos, afinal, feitos de outros seres que nos habitam: bactérias e vírus e outros micro-organismos. A biologia diz isso: que não somos tão individuais quanto pensamos. Não somos puramente humanos. Somos mestiços, todos nós. E essa mestiçagem envolve seres que figuram numa dimensão que parecia longínqua. Esse pressuposto, por si, é uma cambalhota no modo de nos olharmos. E a biologia sugere outras coisas, como o descentramento da nossa espécie, que, afinal, apenas é parte de um sistema mais amplo. Infelizmente, essa carga de sugestão do pensamento ecológico foi recuperada pela economia de mercado e pela visão mecanicista e redutora que essa economia comporta. Tudo isso foi importante entender para me fazer escritor. A biologia restituiu-me familiaridade com seres que pareciam distantes. Hoje sou capaz de escutar o que uma árvore quer dizer. Seria de esperar que, sendo um cientista, eu estaria mais carregado de certezas. É quase o inverso. Estou mais disponível a deixar de ter certezas.
GONÇALO M. TAVARES: Quando se está no meio da floresta, dos bichos e das plantas, o que pensas e como se pensa sobre a política dos homens? O que trazes desse mundo para o outro mundo onde há pessoas que te querem ouvir? E levas algo da língua para essa natureza, que aparentemente não fala (nem sequer português!) e não ouve?
Quando estou no meio da floresta eu procuro uma fala, uma língua para falar com essas entidades. Terra, bichos e plantas dizem coisas, sussurram segredos e mistérios. O problema está que deixamos de saber escutar. Esse é o percurso que me encanta: reabilitar essa escuta dentro de mim. O escritor é sempre um escutador. E quero reaprender os idiomas de quem não fala língua humana nenhuma. Nesse outro lado de que falas, eu me sento a olhar a minha própria língua, que deixa então de ser herança já feita para se encher de História e de histórias. E começo a conversar com a minha língua portuguesa, como se ela fosse terra, água e gente.
TATIANA SALEM LEVY: O que dizem seus olhos?
Espero que digam “espanto”. Esse sentimento que é a fonte de todo o desejo de encontro. Esse espanto é o modo de a infância se guardar dentro de nós.
Fonte: Site Jornal O Globo
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Este blog foi criado para homenagear um dos maiores nomes da literatura africana e em língua portuguesa, Mia Couto. A obra de Mia toma cada vez mais proporções universais, e seu estilo de escrita, que mergulha em rica prosa poética e na vasta criação de palavras, torna esse escritor singular e um artista raro no meio das Letras.
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